sábado, 18 de julho de 2026

Fragmentos: Uma estranha entre taurens


"Sem Expansão"

Muito antes de algumas grandes guerras mudarem Azeroth, quando os tauren ainda percorriam Mulgore seguindo as migrações dos kodos e aprendiam com o próprio vento os caminhos da terra, havia um pequeno vale escondido entre as montanhas ao norte da Aldeia Narache.

Era um lugar tão discreto que muitos acreditavam tratar-se apenas de uma lenda contada pelos anciãos. Os penhascos protegiam o vale de quase todos os lados, enquanto um riacho cristalino serpenteava entre os campos floridos antes de desaparecer sob as pedras. Pinheiros antigos dividiam espaço com grandes carvalhos, e o ar permanecia fresco mesmo durante os dias mais quentes do verão.

Ali existia Raiz-Totem.

O vilarejo era pequeno. Não havia mais que algumas dezenas de moradores, todos vivendo em cabanas erguidas com madeira caída, couro e pedra. Ninguém retirava da terra mais do que precisava, e cada árvore derrubada era acompanhada pelo plantio de outras duas. A natureza não era uma aliada nem uma serva. Era parte da família.

Earthblood havia escolhido aquele lugar muitos anos antes.

Enquanto outros druidas viajavam constantemente para auxiliar diferentes tribos, ela desejava construir algo permanente. Um lar onde crianças aprendessem primeiro o nome das flores e dos rios, antes mesmo de conhecer o peso de um machado.

Foi ali que Arieivh cresceu. Uma mestiça de elfa sangrenta e elfo noturno.

Ainda pequena, ela parecia incapaz de permanecer parada. Bastava o sol nascer para desaparecer entre as árvores, voltando apenas quando a luz já começava a dourar as montanhas. Sempre havia algo novo para mostrar: uma pena colorida encontrada perto do riacho, um esquilo particularmente corajoso ou uma pedra que, segundo ela, possuía o formato exato de um kodo adormecido.

Earthblood fingia surpresa todas as vezes.

Não porque acreditasse na descoberta, mas porque conhecia o brilho que existia nos olhos de uma criança quando alguém decidia enxergar o mundo através dela.

As manhãs pertenciam aos ensinamentos.

Enquanto outras crianças taaurens aprendiam a manejar lanças de caça, Arieivh passava horas ajoelhada sobre a terra ao lado da velha tauren. Earthblood mostrava como reconhecer ervas medicinais, explicava por que algumas plantas cresciam apenas à sombra das montanhas e fazia questão de que a menina observasse os animais antes de aprender qualquer feitiço.

"Um druida não muda de forma para parecer um animal", dizia com a voz calma enquanto acariciava o musgo que cobria uma pedra antiga. "Ele muda porque primeiro aprendeu a compreender aquela vida."

Arieivh franzia o nariz, convencida de que aprender observando era muito mais demorado do que simplesmente lançar magia.

Mesmo assim obedecia.

Mais ou menos.

Bastava Earthblood voltar as costas para que a pequena desaparecesse atrás de algum cervo curioso ou resolvesse escalar um rochedo que claramente era alto demais para alguém de sua idade. Não demorava muito até um dos moradores aparecer sorrindo à porta da druida.

-- Sua filha está em cima de outra árvore.

Earthblood apenas agradecia.

Nunca perguntava qual árvore.

Havia aprendido que isso economizava tempo.

Apesar da energia inesgotável da menina, existia algo curioso nela. Os animais não fugiam quando Arieivh se aproximava. Coelhos permaneciam imóveis enquanto ela se sentava na relva, pequenos pássaros pousavam próximos aos seus pés e, certa vez, um filhote de puma adormeceu encostado em seu colo depois de passar a tarde inteira seguindo seus passos pela floresta.

Os anciãos de Raiíz-Totem começaram a comentar que a natureza parecia reconhecer aquela órfã antes mesmo que ela aprendesse a reconhecer a própria ligação com ela.

Earthblood ouvia esses comentários em silêncio e lamentando por terem rejeitado essa pequena elfinha mestiça.

No fundo, já suspeitava que os espíritos haviam reservado um caminho especial para Arieivh.

Mas esse era um futuro distante.

Por enquanto, ela era apenas uma menina correndo pelos campos de Raiz-Totem, longe e isolado de qualquer outra aldeia e convívio, colecionando penas de corvo, inventando histórias para as nuvens e acreditando, com toda a convicção do mundo, que as montanhas cochichavam umas com as outras durante a noite.

E Earthblood nunca encontrou motivo para dizer que ela estava errada. 

domingo, 12 de julho de 2026

Fragmentos: Ecos Entre as Torres Sangrentas



Pós Dragonflight



O céu sobre Luaprata tinha aquele brilho dourado que parecia existir apenas ali.


As altas torres refletiam a luz do Sol como cristal líquido, enquanto os estandartes vermelhos balançavam ao vento vindo do Mar de Véu de Névoa. Fontes encantadas espalhavam discretos fios de energia arcana pelo ar, perceptíveis apenas aos mais sensíveis à magia.


Para Etheresza, aquilo era quase inacreditável.A jovem dracthyr caminhava ao lado da elfa sangrenta, observando cada ponte, jardim e construção com um encantamento impossível de esconder. Mantinha as asas recolhidas por respeito ao ambiente urbano, mas resolveu oculta-las na sua forma paisana.


Respirou fundo.


– Isso é... muito maior do que imaginei.


Yuleth sorriu: – Bem-vinda a Luaprata. Minha casa.


Seguiram pela larga avenida próxima ao Bazar Real. Mercadores exibiam cristais encantados, tecidos de Quel'Danas e artefatos arcanos, enquanto moradores cruzavam as ruas com naturalidade.Etheresza absorvia tudo como uma criança descobrindo um mundo novo.


Quando uma patrulha passou por elas, os Andarilhos interromperam a marcha e saudaram Yuleth.


–  Lady Yuleth.


Ela respondeu apenas com um leve aceno.


Pouco depois, dois magísteres saíam de uma biblioteca acompanhados por grimórios flutuantes.


– Ainda lhe devemos um jantar pela última missão.


Yuleth riu.


– Vocês ainda insistem nisso?

– É um dever cívico, depois da ajuda com os artefatos.


Os dois seguiram seu caminho.


Mais adiante, próximo à Travessa do Assassino, figuras encapuzadas surgiam e desapareciam entre as sombras. Um deles ergueu dois dedos em cumprimento. Outro apenas inclinou a cabeça, sorrindo. Nenhum demonstrava medo ou ojeriza, mas respeito.


Depois de alguns minutos confusa, Etheresza finalmente perguntou:


— Eu esperava que apenas os Cavaleiros Sangrentos a respeitassem... talvez até os patrulheiros. Mas os magísteres... e até os…?


Yuleth permaneceu em silêncio por alguns passos antes de responder.


— Nem sempre fui uma paladina, conjurante.


Seu sorriso desapareceu.

– Houve uma época em que eu não tinha mais casa.


Etheresza reduziu o passo.


— Meu pai traiu Quel'Thalas. Vendeu informações e fez alianças imperdoáveis em busca de poder. Minha família foi condenada por quem devia proteger. Minha mãe havia sumido.


Ela apertou lentamente o punho.

– Minha irmã... meu próprio pai tentou sacrificá-la.


Etheresza arregalou os olhos.

– O quê...?


– Ela conseguiu fugir. Hoje vive entre os Altaneiros, na Aliança - Um sorriso triste cruzou seu rosto – Pelo menos está viva. Se tornou uma exímia caçadora… mesmo com a tradição familiar em magia.


O vento balançava seus cabelos enquanto retomavam a caminhada.


– Eu fiquei ao lado dos sobreviventes que perderam tudo. Minha casa, meu nome, minha família... qualquer futuro que imaginei. A vergonha que carreguei até retomar a honra do nome que eu carrego.


Ela observava as ruas impecavelmente reconstruídas, mas parecia enxergar outra Luaprata. Uma cidade coberta por ruínas, cinzas e sangue. CLIQUE EM LEIA MAIS PARA LER TUDO