domingo, 12 de julho de 2026

Fragmentos: Ecos Entre as Torres Sangrentas



Pós Dragonflight



O céu sobre Luaprata tinha aquele brilho dourado que parecia existir apenas ali.


As altas torres refletiam a luz do Sol como cristal líquido, enquanto os estandartes vermelhos balançavam ao vento vindo do Mar de Véu de Névoa. Fontes encantadas espalhavam discretos fios de energia arcana pelo ar, perceptíveis apenas aos mais sensíveis à magia.


Para Etheresza, aquilo era quase inacreditável.A jovem dracthyr caminhava ao lado da elfa sangrenta, observando cada ponte, jardim e construção com um encantamento impossível de esconder. Mantinha as asas recolhidas por respeito ao ambiente urbano, mas resolveu oculta-las na sua forma paisana.


Respirou fundo.


– Isso é... muito maior do que imaginei.


Yuleth sorriu: – Bem-vinda a Luaprata. Minha casa.


Seguiram pela larga avenida próxima ao Bazar Real. Mercadores exibiam cristais encantados, tecidos de Quel'Danas e artefatos arcanos, enquanto moradores cruzavam as ruas com naturalidade.Etheresza absorvia tudo como uma criança descobrindo um mundo novo.


Quando uma patrulha passou por elas, os Andarilhos interromperam a marcha e saudaram Yuleth.


–  Lady Yuleth.


Ela respondeu apenas com um leve aceno.


Pouco depois, dois magísteres saíam de uma biblioteca acompanhados por grimórios flutuantes.


– Ainda lhe devemos um jantar pela última missão.


Yuleth riu.


– Vocês ainda insistem nisso?

– É um dever cívico, depois da ajuda com os artefatos.


Os dois seguiram seu caminho.


Mais adiante, próximo à Travessa do Assassino, figuras encapuzadas surgiam e desapareciam entre as sombras. Um deles ergueu dois dedos em cumprimento. Outro apenas inclinou a cabeça, sorrindo. Nenhum demonstrava medo ou ojeriza, mas respeito.


Depois de alguns minutos confusa, Etheresza finalmente perguntou:


— Eu esperava que apenas os Cavaleiros Sangrentos a respeitassem... talvez até os patrulheiros. Mas os magísteres... e até os…?


Yuleth permaneceu em silêncio por alguns passos antes de responder.


— Nem sempre fui uma paladina, conjurante.


Seu sorriso desapareceu.

– Houve uma época em que eu não tinha mais casa.


Etheresza reduziu o passo.


— Meu pai traiu Quel'Thalas. Vendeu informações e fez alianças imperdoáveis em busca de poder. Minha família foi condenada por quem devia proteger. Minha mãe havia sumido.


Ela apertou lentamente o punho.

– Minha irmã... meu próprio pai tentou sacrificá-la.


Etheresza arregalou os olhos.

– O quê...?


– Ela conseguiu fugir. Hoje vive entre os Altaneiros, na Aliança - Um sorriso triste cruzou seu rosto – Pelo menos está viva. Se tornou uma exímia caçadora… mesmo com a tradição familiar em magia.


O vento balançava seus cabelos enquanto retomavam a caminhada.


– Eu fiquei ao lado dos sobreviventes que perderam tudo. Minha casa, meu nome, minha família... qualquer futuro que imaginei. A vergonha que carreguei até retomar a honra do nome que eu carrego.


Ela observava as ruas impecavelmente reconstruídas, mas parecia enxergar outra Luaprata. Uma cidade coberta por ruínas, cinzas e sangue. CLIQUE EM LEIA MAIS PARA LER TUDO




– Vivi nas ruas. Passei fome. Roubar comida deixou de ser uma escolha e virou sobrevivência.


Respirou fundo.

– E eu não era a única.


Seu olhar pousou sobre algumas crianças brincando perto de uma fonte.


– Depois do genocídio havia centenas de órfãos. Irmãos procurando irmãos. Pessoas tentando descobrir quem ainda estava vivo. Parentes se tornando mortos vivos. Filhos tendo que sacrificar os pais moribundos em uma casca dominada por aquele…


Sua voz baixou.


– Muitos nunca encontraram resposta.


Etheresza sentiu um aperto no peito.


Era difícil acreditar que aquela cidade magnífica carregasse lembranças tão dolorosas.


– Yuleth... eu...


Ela não encontrou palavras.


Yuleth sorriu com tranquilidade.


– Não precisa dizer nada. Faz parte do conhecimento que você precisa adquirir de todos os anos em que você ficou em estase.


Continuaram caminhando em silêncio até que ela apontou para um grupo de patrulheiros treinando numa praça.


— Alguns deles me ensinaram a caçar, rastrear e sobreviver. Também lhes devia mais refeições do que gostaria de admitir.


Etheresza sorriu.


– Houve pessoas que abriram suas casas para mim. Eu era uma boa aluna em magia, que era onde iniciava o meu caminho e ao mesmo tempo gostava de usar espadas.


Yuleth indicou as torres arcanas.


– Nunca fui uma magíster, mas aprendi o suficiente para compreender aquele mundo. - Sorriu de leve a elfa sangrenta. – Acho que sempre caminhei entre todos eles.


Contou nos dedos.


– Patrulheiros. Magísteres. Comerciantes. Órfãos. Andarilhos. Todos unidos em salvar o nosso povo e reconstruir tudo do zero. Uma certa família maior do que as nossas. O Coletivo, a comunidade.


Então abaixou a mão.


– Até que... a Luz me encontrou.


As duas pararam diante de um amplo terraço de mármore, de onde era possível contemplar quase toda Luaprata. Ao longe, a Nascente do Sol irradiava sua energia sobre as torres da cidade, aquecendo os corações.


Yuleth apoiou as mãos no guarda-corpo e permaneceu em silêncio por alguns instantes.


– Naquela época... eu estava quebrada. Cansada, com medo e completamente sozinha e com um pedacinho da minha alma aprisionada.


Ela fechou os olhos por um momento. – Chorei aos pés de Lady Liadrin. Pedi ajuda.


Quando voltou a falar, havia serenidade em sua voz.


– Ela estendeu a mão para mim. Foi ali que a Luz deixou de ser apenas um poder. Tornou-se um caminho. Tenho meus encontros e desencontros, mas compreendi a natureza da luz.


O silêncio que se seguiu dizia mais do que qualquer palavra. Etheresza finalmente compreendia por que tantas pessoas cumprimentavam Yuleth pelas ruas. Não era apenas pela armadura ou pelo posto entre os Cavaleiros Sangrentos. Era pelo caminho que havia percorrido e pela pessoa que escolhera se tornar.


Um comerciante idoso passou por elas.


– Lady Yuleth.


Mais adiante, uma patrulheira acenou com um sorriso.


– Boa tarde!


Até um vulto encapuzado ergueu discretamente dois dedos antes de desaparecer entre os becos.


Etheresza observava tudo em silêncio.


Aquele respeito não era imposto. Havia sido conquistado.


Yuleth percebeu seu olhar.


– Só tento devolver um pouco do que recebi. Sempre que posso, ajudo o orfanato e financio os estudos de crianças que jamais teriam essa oportunidade.


Seu olhar deslizou até a Travessa dos Vultos.


– Alguns dos que cresceram nas ruas hoje são patrulheiros. Outros seguiram a magia. Alguns vieram dali. Fora alguns aprendizes de cavaleiros. - diizia sorrindo de leve.


– Descobri cedo que quase ninguém escolhe viver nas sombras. Muitas vezes, apenas nunca teve outra opção.


Etheresza sentiu a admiração crescer ainda mais. Yuleth não havia esquecido o próprio passado, por mais doloroso que fosse. Transformava a dor em motivo para impedir que outros passassem pelo mesmo.


Antes que a dracthyr dissesse qualquer coisa, a paladina voltou a sorrir.


– Chega de histórias tristes. - Disse, apontando para um grande complexo de mármore e cristal, envolto por runas cintilantes. - Ainda quero lhe mostrar a Universidade de Luaprata.


Os olhos de Etheresza brilharam.


– Conhecimento mágico?


Ela ajustou os óculos, e as asas estremeceram de animação.– Acho que você acabou de descobrir exatamente como me convencer a continuar andando.



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O caminho até o distrito acadêmico onde ficava a Universidade Talassiana seguia por uma larga passarela suspensa, de onde se podia admirar boa parte de Luaprata. Sob elas, as avenidas de mármore branco serpenteavam entre jardins impecáveis, fontes encantadas e construções que refletiam a luz dourada da Fonte do Sol. O vento carregava o perfume das flores de mana, misturado ao leve zumbido da energia arcana que parecia pulsar naturalmente pela cidade.

Depois de tudo o que havia contado, Yuleth permanecia em silêncio.

Não era um silêncio desconfortável.

Era daqueles que vêm depois de abrir uma parte da alma.

Etheresza também não dizia nada. Caminhava alguns passos atrás, olhando a cidade... mas, de tempos em tempos, seu olhar escapava para o rosto da paladina.

Mais especificamente...

Para o olho direito.

Ela já havia notado desde o primeiro momento em que se encontraram.

Enquanto o esquerdo possuía aquele brilho dourado vivo, quase reconfortante, o direito parecia diferente. A íris ainda era dourada, mas apresentava um tom mais pálido, quase esbranquiçado em certos ângulos. Havia algo naquele olhar que destoava do restante do rosto, como uma cicatriz que aprendera a existir sem desaparecer completamente.

Etheresza desviava os olhos sempre que percebia que estava encarando.

Achava falta de educação perguntar.

Yuleth, porém...

Percebia absolutamente todas as vezes.

Um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios.

– Você está se segurando faz tempo, não é?

Etheresza piscou.

– Hã?

A paladina virou apenas um pouco a cabeça na direção dela.

– Desde que nos conhecemos.

A dracthyr congelou.

– Eu... eu não...

Yuleth arqueou uma sobrancelha.

– Está tentando descobrir o que aconteceu com o meu olho.

O rosto de Etheresza ganhou um tom avermelhado quase instantaneamente.

Ela levou uma das mãos à nuca, claramente sem graça.

– Eu juro que tentei não olhar...

Yuleth acabou rindo.

Uma risada baixa, genuína.

– Eu sei.

– Achei que estivesse sendo discreta...

– Estava.

Ela sorriu.

– Nos primeiros cinco minutos.

Etheresza soltou um suspiro derrotado:

–Então eu fracassei completamente...

– Um pouquinho.

As duas riram e a leveza daquele momento dissipou parte da melancolia que pairava desde a conversa sobre o passado.

Depois de alguns passos, Yuleth ergueu lentamente a mão direita e, com a ponta dos dedos, tocou de leve a região abaixo do próprio olho.

Seu sorriso diminuiu.

– Aliás...

Sua voz saiu mais baixa e ela permaneceu observando a cidade enquanto falava.

– Principalmente porque o outro continua exatamente como sempre foi.

Etheresza acompanhou seu gesto.

Agora não havia curiosidade em seu olhar.

Havia apenas atenção.

Yuleth respirou profundamente antes de continuar.

-- É uma sequela.

Aquelas duas palavras saíram simples.

Ela deslizou os dedos pela pele como quem tocava uma lembrança, e não apenas o próprio rosto.

– Do que aconteceu quando eu ainda era uma elfinha. E… essa tatuagem vermelha em meus olhos…

O vento passou entre as duas, fazendo os cabelos azul-escuros da paladina dançarem por alguns instantes.

Ela permaneceu olhando o horizonte mas já não enxergava a cidade.
Seus pensamentos tinham ido muito mais longe e Etheresza não perguntou nada.

Percebeu que, pela primeira vez desde que começara a contar sua história, Yuleth parecia realmente hesitar. Era uma memória que ainda doía.

A paladina soltou um longo suspiro e então sorriu outra vez.

Um sorriso pequeno, cansado, mas sincero.

– E...

Ela desviou finalmente os olhos do horizonte para encarar a dracthyr.

– Essa história fica para outro momento.

Etheresza sustentou seu olhar por alguns segundos e depois assentiu, sem fazer perguntas:

— Tudo bem - disse com uma voz baixa - Algumas lembranças precisam do momento certo para serem contadas.

Yuleth a observou por um instante.Era exatamente por isso que gostava tanto dela. Etheresza era curiosa, mas sabia respeitar o silêncio dos outros.

A paladina estendeu a mão e bagunçou de leve a franja roxa da dracthyr, num gesto quase automático de irmã mais velha.

— Obrigada por não insistir.

Etheresza fez uma careta divertida enquanto tentava arrumar o cabelo.

— Estou aprendendo.

— Com quem?

— Com uma certa paladina que vive dizendo que paciência também é uma virtude.

Yuleth sorriu de canto.

— Finalmente alguma das minhas lições está funcionando, mesmo eu sendo contraditória em relação a minha paciência.

— Não se acostume.

— Ah, então você ainda pretende me dar trabalho?

Etheresza abriu um sorriso travesso, as asas estremecendo discretamente.

— Achei que esse fosse o dever oficial de quem foi acolhida.

A risada de Yuleth ecoou pela passarela, leve e verdadeira e por alguns minutos, as sombras do passado permaneceram exatamente onde deveriam estar.

E, diante delas, as torres cristalinas da Universidade Talassiana pareciam convidar ambas a seguir em frente, uma lembrança silenciosa de que nem toda história precisava ser contada de uma só vez.