domingo, 22 de dezembro de 2024

Fragmentos: Ventos Sussurantes

 


PÓS-QUEDA DE QUEL'THALAS


 A reconstrução de Quel'Thalas acontecia de maneira curiosa.
As muralhas voltavam a ser erguidas, os jardins iriam recuperar lentamente o perfume de antesse não fosse o cheiro de morte empesteado, mas havia algo que permanecia irremediavelmente quebrado. Não era uma ruína visível, nem um edifício reduzido a escombros. Era uma sensação compartilhada por todos os sobreviventes, como se a floresta inteira ainda esperasse por vozes que jamais voltariam a responder.

Kyo (seu novo nome) crescera em meio a esse silêncio.

Depois do massacre de sua família durante a invasão, aprendeu cedo que sobreviver significava muito mais do que escapar da morte. Significava aceitar que algumas perguntas jamais encontrariam resposta. Nunca lhe explicaram claramente por que um dos generais patrulheiros insistira tanto para que seu verdadeiro sobrenome desaparecesse dos registros públicos. As poucas vezes em que tentou perguntar, os adultos apenas trocavam olhares desconfortáveis e encerravam a conversa antes que ela realmente começasse, prezando por ele.

Diziam apenas que era mais seguro daquela maneira.

Que havia gente interessada em garantir que nenhum herdeiro daquela linhagem permanecesse vivo.

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Kyo era jovem demais para compreender disputas entre casas nobres, influência política ou antigos juramentos. Ainda assim, entendia perfeitamente o peso que existia em carregar um nome que não podia ser pronunciado. Com o passar dos anos, deixou de se apresentar pelo sobrenome até mesmo para si, mas manteve consigo os pertences oficiais da família. Tornou-se apenas Kyo, como se esconder parte da própria identidade fosse um hábito tão natural quanto respirar. Talvez fosse justamente por isso que se sentisse cada vez mais distante de si mesmo.

Yuleth parecia seguir o caminho oposto mesmo em meio ao caos e a vergonha de um nome sujado pelo pai, onde ela é vista com desdém.

Enquanto Quel'Thalas tentava encontrar uma nova forma de existir, ela descobrira exatamente quem desejava ser mesclado a sensação de justiça, amor e ódio. A convivência com os Cavaleiros Sangrentos despertara nela uma determinação que Kyo nunca havia visto antes. A antiga amiga de infância continuava sorrindo do mesmo jeito em meio a dor, implicando com ele durante os treinos e fazendo comentários desnecessários apenas para arrancar alguma reação, mas havia algo diferente em seus movimentos. Eles deixavam de pertencer a uma jovem treinando com espadas e passavam a revelar alguém que enxergava um futuro adiante com um misto de preocupação com a irmã mais nova morando sabe-se lá onde com o tio.

Naquela tarde, o campo de treinamento estava quase vazio. O sol filtrava-se pelas folhas douradas das árvores, espalhando manchas de luz sobre a areia enquanto o som metálico das espadas rompia na "pequena" tranquilidade do bosque completamente destruido perto do rastro de morte e destruição que outrora Arthas deixara.

Yuleth avançou primeiro.

Seu golpe veio limpo, preciso. Kyo conseguiu bloquear, girou o corpo para responder com uma estocada e, poucos segundos depois, viu sua espada escapar da mão após um desarme elegante.

Ela sorriu com evidente satisfação.

-- Você continua deixando o lado esquerdo aberto.

Kyo abaixou-se para recuperar a espada, limpando a areia da lâmina antes de responder.

-- Eu notei.

-- Não parece. -Ela girou a própria espada entre os dedos, observando o equilíbrio da arma.

--Ainda prefiro lanças. - Levantou o olhar para ele. - Acho que sempre vou preferir.

Houve um pequeno silêncio antes de continuar.

-- Mas um cavaleiro não escolhe o campo de batalha. Se algum dia eu precisar proteger alguém, quero saber usar qualquer arma que estiver ao meu alcance.

Kyo apenas concordou.

Ela sempre tivera facilidade com armas de haste. Parecia que o próprio corpo compreendia naturalmente o alcance de uma lança ou de uma alabarda. Havia elegância em seus movimentos, algo que ele admirava desde a infância, apesar de achar confuso uma sindorei que entende um pouco de magias, de caça, de tantas outras coisas.

Curiosamente, acontecia exatamente o contrário consigo: também dominava aquelas armas, mas nunca encontrara nelas qualquer afinidade. Cada golpe parecia executado por obrigação, como alguém repetindo passos de uma dança cuja música jamais conseguira ouvir.

Yuleth percebeu seu desinteresse.

-- Então por que continua insistindo?

-- Porque preciso aprender alguma coisa nova.

Ela inclinou levemente a cabeça.

-- Você sempre foi melhor com arco.

A frase ficou suspensa entre os dois e por um instante, Kyo teve a impressão de ouvir novamente o som das flechas cortando o ar.

Não as do treinamento.

As outras que atravessaram o jardim de sua casa anos atrás.

As que anunciaram o começo do fim.

Seu olhar desviou naturalmente para a linha das árvores e Yuleth percebeu o arrependimento antes mesmo que ele respondesse. Conhecia Kyo desde pequenos. Sabia reconhecer quando uma lembrança atravessava seu rosto antes mesmo que ele encontrasse palavras para escondê-la.

-- Desculpa...

Ele balançou a cabeça.

-- Não é culpa sua.

Era verdade, já que nunca contara a ninguém por que abandonara a arquearia. Nem mesmo para ela, mesmo ela sabendo sua origem.Algumas lembranças pareciam ganhar força sempre que eram colocadas em voz alta.Outras eram suportáveis apenas enquanto permanecessem em silêncio.

Os dias seguiram um ritmo quase imutável. Pela manhã, Yuleth desaparecia entre os treinamentos. À tarde, encontravam-se sempre que possível para praticar juntos. À noite, ela costumava voltar cheia de histórias sobre mestres exigentes, exercícios absurdos e companheiros que sonhavam em servir Quel'Thalas com a mesma devoção que seus antecessores, além, de mais alimentos que ganhava de pessoas bondosas para todos aqueles que se tornaram órfãos.

Kyo ouvia tudo com interesse sincero e ainda assim, sentia-se cada vez mais distante daquele mundo.

Havia momentos em que a observava falar e tinha a estranha sensação de assistir alguém embarcando em uma estrada perfeitamente iluminada, enquanto ele permanecia parado à margem, incapaz de decidir sequer para onde deveria olhar e se teria a capacidade de acompanhar.

Não era inveja e nem tristeza.

Era uma ausência difícil de nomear, como se todos, mesmo perdidos, tivessem encontrado um lugar onde suas vidas faziam sentido na sobrevivência, enquanto ele continuava ocupando um espaço provisório dentro da própria existência.

Foi durante uma dessas noites que deixou a cidade para caminhar sozinho pelos bosques de Canto Eterno.

O vento atravessava lentamente as folhas, fazendo-as girar pelo ar antes de pousarem sobre a água de um riacho. Kyo permaneceu observando aquele movimento durante muito tempo. Não havia pressa alguma na maneira como a corrente carregava cada folha. Nenhuma parecia resistir ao caminho. Apenas seguiam.

Lembrou-se então de uma história antiga que ouvira de um viajante muitos anos antes. O homem dizia que existiam seres tão pequenos que a maioria das pessoas jamais percebia sua presença. Habitavam o mundo desde antes da memória dos povos e moviam-se silenciosamente, alterando o curso da água, das plantas e até dos sonhos. Não eram bons nem maus. Apenas existiam, obedecendo a uma lógica que escapava à compreensão comum.

Na época, Kyo achara aquela história bonita e agora, pela primeira vez, perguntava-se se os próprios elfos não viviam da mesma maneira. Seguindo correntes invisíveis sem jamais perceber.

Mas... e aqueles que deixavam de senti-las?

Na manhã seguinte, antes mesmo que o sol alcançasse os telhados de Luaprata, ele já havia tomado sua decisão.

Não partiria para fugir do passado mas porque, se continuasse ali, acabaria vivendo apenas o futuro sem propósito, sem norte, sem sentido, sem nada.

E isso lhe parecia uma forma muito lenta de desaparecer.

Quando Kyo contou que partiria, Yuleth permaneceu em silêncio por alguns instantes. Durante anos haviam dividido os mesmos caminhos, os mesmos treinos e as mesmas pequenas batalhas da infância, estudando nas mesmas escolas e com suas famílias se conhecendo por alto. Era difícil imaginar Quel'Thalas sem encontrar o melhor amigo em algum canto da cidade, pronto para implicar com ela por qualquer motivo banal e que conseguiu sobreviver com ela, além de ajudar a irmã dela em meio ao caos.

Ela compreendeu imediatamente que não era uma viagem. Era uma busca. E, justamente por isso, não havia argumento capaz de fazê-lo mudar de ideia e seus olhos verde-esmeralda marejaram ao encontrar os dele. Eram da mesma cor, mas o brilho de Kyo parecia distante havia muito tempo, apagado pelas perdas que jamais conseguira colocar em palavras e com menos influência do fel. Ela conhecia aquele olhar desde criança e sabia que quando ele tomava uma decisão daquela forma, já a havia aceitado muito antes de contá-la.

Por um instante, ambos permaneceram imóveis. Existia um sentimento entre os dois que nunca precisou ser confessado. Talvez por medo de estragar a amizade, talvez porque sempre acreditassem que haveria outro dia para falar sobre isso. Cresceram provocando um ao outro, discutindo durante os treinos e reconciliando-se poucos minutos depois, como se aquela fosse a maneira que encontraram de demonstrar carinho.

Yuleth respirou fundo. Doía vê-lo partir mas uma aprendiz dos Cavaleiros Sangrentos precisava aprender que ser forte nem sempre significava empunhar uma espada.

Sem dizer nada, aproximou-se e o abraçou.

O gesto foi inesperado. Nunca haviam sido daquele tipo de amizade. Ainda assim, Kyo retribuiu quase por instinto. Sentiu o coração apertar de um jeito que nunca acontecera antes, como se naquele breve instante entendesse tudo que sentia durante tantos anos. Porém precisava seguir em frente, assim como ela.

Quando ela se afastou, manteve as mãos sobre seus braços e sustentou o olhar, apesar das lágrimas quase secas por segurá-las.

-- Fique vivo.

Sua voz saiu baixa, mas firme.

-- Você é a única pessoa que sobrou.

Kyo quis responder. Quis dizer que também não queria deixá-la, que talvez ela fosse o único motivo que ainda o fazia hesitar. Era o mesmo que ele sentia por ela. Ela também era a única que sobrou de todo o seu convívio, mas as palavras nunca vieram. Ajeitou a faixa vermelha na cabeça de Yuleth depois de ajeitar a própria faixa que carregava. Após isso, apenas segurou a mão dela por um breve instante, assentiu em silêncio e partiu, levando consigo a certeza de que havia deixado para trás muito mais do que Quel'Thalas.