segunda-feira, 21 de abril de 2025

Fragmentos: A ardência de uma alma mestiça


 Expansão Legion

A floresta de Val'sharah parecia agonizar.
O verde exuberante que outrora abrigara druidas e criaturas ancestrais havia cedido lugar às chamas da energia vil, que consumiam árvores centenárias enquanto fendas abertas no céu despejavam novos contingentes da Legião Ardente. O ar carregava o cheiro podre da corrupção demoníaca, misturado ao de madeira queimada e sangue. Era difícil acreditar que aquele lugar já fora considerado um dos recantos mais sagrados de Azeroth.

Nychtat avançava entre os demônios como um vulto. Os anos em que vivera como ladina ainda se revelavam em seus movimentos precisos e silenciosos, mas a disciplina dos monges andarilhos havia transformado aquela letalidade em algo muito mais refinado. Uma rasteira derrubou um guarda vil, e antes que ele pudesse se levantar um golpe concentrado de chi afundou seu peito. Ela girou o corpo para escapar do machado de outro inimigo, usou o impulso para acertar-lhe o cotovelo na mandíbula e terminou o movimento com um chute que o lançou contra um tronco já rachado pelas explosões demoníacas.

Poucos metros adiante, Kyo enfrentava três infernais menores ao mesmo tempo. Seus punhos brilhavam com a energia do chi enquanto seus golpes fluíam sem violência desnecessária, como se acompanhassem o curso de um rio. Cada ataque parecia preparado para conduzir o seguinte, obrigando os demônios a tropeçarem uns sobre os outros antes de sucumbirem. Já Yuleth permanecia firme na linha de frente, protegendo os dois companheiros do avanço dos inimigos maiores. A Luz envolvia sua armadura dourada e sua espada abria espaço entre os felguards, dissipando a energia vil sempre que se chocava contra ela. No fundo sentia falta da Haste companheira.

Mesmo assim, a sensação era de que nada bastava.

Para cada demônio abatido, outros tantos surgiam dos portais espalhados pela floresta.

Quando finalmente o último deles caiu, os três permaneceram imóveis por alguns instantes, recuperando o fôlego enquanto observavam a devastação ao redor. Nenhum deles comemorava vitórias havia muito tempo.

-- Nunca acaba... - murmurou Nychtat, limpando o sangue negro que escorria por seu antebraço. - Matamos centenas e eles continuam chegando como se Azeroth fosse apenas mais um mundo destinado a morrer.

Yuleth acompanhou o olhar da companheira até um novo rasgo verde que se abria entre as nuvens.

- Enquanto a Legião existir, isso continuará acontecendo. É exatamente por isso que não podemos parar.

Nychtat soltou uma risada amarga.

- Curioso... Passei boa parte da minha vida sendo rejeitada pelos povos que agora esperam que eu lute por eles.

As palavras fizeram Kyo voltar sua atenção para ela, embora permanecesse em silêncio.

Nychtat raramente falava sobre si mesma. Quando o fazia, era porque alguma ferida antiga havia voltado a doer.

- Passei séculos tentando entender quem eu era. Sem saber dessa tal Suramar que tanto sussuram que exista, achei aa vida inteira que era uma aberração de elfo noturno. Para os elfos sangrentos, eu sempre fui uma aberração esquisita. Cresci ouvindo que não pertencia a lugar algum.

Ela respirou fundo antes de continuar.

- Durante muito tempo odiei meu pai por acreditar que ele simplesmente havia abandonado minha mãe, mesmo sem conhecer ele já que ele morreu. Agora descubro que a verdade era outra. Ele fugiu tentando salvar a própria vida dessa tal Suramar e acabou condenado a definhar sozinho durante séculos, enquanto minha mãe carregava tudo nas costas.

A raiva em sua voz não diminuía ao falar da verdade recém-descoberta entre uma facada e outra. Apenas mudava de direção.

Yuleth permaneceu alguns instantes pensativa antes de responder.

- Talvez isso também explique por que você sobreviveu melhor do que muitos imaginariam.

Nychtat arqueou uma sobrancelha.

- Como assim?

- Você nasceu em Quel'Thalas, próxima à Nascente do Sol. Durante gerações, ela irradiou magia arcana por toda a região. É possível que essa exposição constante tenha amenizado parte dos conflitos provocados pela sua herança. Além disso, sua mãe era uma elfa sangrenta. Você herdou dela muito mais do que apenas a aparência.

Nychtat permaneceu calada.

Jamais havia considerado aquela possibilidade já que sempre acreditara que sobrevivera apenas por acaso.

Kyo sorriu discretamente.

- Você vive procurando respostas apenas no sofrimento.

Ela olhou para ele.

- E onde mais eu deveria procurar?

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- No caminho que escolheu seguir.

Nychtat franziu a testa.

- Está falando como um mestre do Templo do Pico da Serenidade.

- Espero que não. Eles falam muito melhor do que eu.

Os três riram pela primeira vez desde o início daquela marcha.

Kyo então prosseguiu, agora com um tom mais sério.

- Você passou anos vivendo nas sombras. Poderia ter continuado como ladina, deixando que o ódio guiasse cada decisão. Em vez disso escolheu se tornar monge. Ninguém obrigou você a fazer isso.

Nychtat cruzou os braços.

- Ainda sinto raiva.

- Claro que sente. O caminho dos andarilhos nunca prometeu apagar a raiva. Ele apenas ensina que ela não deve decidir quem você será.

As palavras permaneceram ecoando entre eles enquanto retomavam a caminhada.

Yuleth seguia alguns passos à frente, examinando atentamente cada sinal da presença demoníaca. Havia semanas que escondia dos companheiros a verdadeira razão de dedicar tanta atenção aos comandantes da Legião. Em cada batalha, seus olhos percorriam o campo procurando um rosto específico, uma assinatura mágica, qualquer indício do demônio que carregava o fragmento roubado de sua alma. Até então encontrara apenas servos menores, generais descartáveis e monstros que nada sabiam sobre aquele pedaço de sua existência.

Kyo observava a paladina quase sem perceber. Seus longos cabelos negros balançavam conforme ela caminhava entre as árvores queimadas, e havia algo em sua determinação silenciosa que o fazia esquecer por alguns instantes toda a destruição ao redor.

Yuleth percebeu o olhar antes mesmo que ele desviasse.

- Está procurando mais demônios ou resolveu me vigiar?

Kyo pigarreou, visivelmente constrangido.

- Eu... só estava verificando se você havia se ferido.

Ela sorriu com um divertimento que raramente deixava transparecer durante as missões.

- Se eu estivesse machucada, teria avisado.

Nychtat balançou a cabeça.

- Você definitivamente não nasceu para mentir.

O rosto de Kyo ganhou um leve tom avermelhado, arrancando outra risada das duas.

O momento de leveza, porém, durou pouco.

Uma poderosa onda de energia vil atravessou a floresta, fazendo as folhas remanescentes estremecerem. O chão vibrou sob seus pés enquanto uma nova coluna de fogo verde irrompia entre as árvores, muito maior do que todas as anteriores.

Yuleth parou imediatamente.

Seu peito apertou.

Por um breve instante, sentiu algo dentro de si responder àquela presença, como se uma parte esquecida de sua própria essência a chamasse através da corrupção demoníaca.

Ela não contou aos companheiros o que havia sentido.

Apenas segurou com mais força o cabo da espada e fixou os olhos na direção da explosão.

- Há um comandante da Legião naquela direção.

Nychtat girou os ombros, preparando-se para outra batalha.

- Então vamos acabar com ele.

Sem saber que aquela marcha talvez os aproximasse não apenas de mais uma vitória contra a Legião Ardente, mas da verdade que Yuleth perseguia havia tanto tempo, os três partiram novamente entre as árvores devastadas, enquanto o céu de Val'sharah continuava sendo consumido pelo fogo verde da invasão.