INÍCIO EXPANSÃO LEGION
O início da nova invasão da Legião Ardente espalhava o caos por toda Azeroth. Enquanto exércitos se reuniam para conter o avanço dos demônios, regiões inteiras tornavam-se vulneráveis a antigos inimigos que se aproveitavam da desordem para acertar contas ou concluir planos há muito arquitetados. Kyo aprendera, durante os anos no Templo do Pico da Serenidade, que o chi do mundo jamais mentia. Nos últimos dias, uma inquietação insistente o acompanhava, como se um fio invisível o conduzisse para algum lugar onde a vida se encontrava perigosamente próxima do fim.
Seguindo esse pressentimento, encontrou uma trilha marcada por sangue, ferraduras e vestígios de magia vil. As marcas eram recentes e avançavam por uma mata pouco frequentada de Azsharah, afastando-se das rotas principais utilizadas pelas forças da Horda. Quanto mais avançava, mais evidente se tornava que alguém havia sido perseguido.
Quando avistou o cavalo de Yuleth caído entre as árvores, seu peito se contraiu. O animal respirava com dificuldade, coberto de cortes profundos, mas ainda tentava erguer a cabeça ao reconhecer sua aproximação. Kyo acariciou-lhe rapidamente o pescoço antes de seguir adiante, tomado por um medo que já não conseguia controlar.
Encontrou Yuleth poucos metros além.
Ela permanecia caída sobre a relva, quase imóvel, como se toda a força que sempre demonstrara tivesse sido arrancada de seu corpo. A armadura apresentava rachaduras profundas, parte do metal havia sido retorcida pela violência dos golpes e o sangue escorria lentamente por entre as placas douradas. Seus pulsos exibiam marcas arroxeadas de contenção, e ao redor do corpo havia um círculo de runas queimadas que ainda irradiava resíduos de magia sombria. Não era difícil compreender o que acontecera ali. O ritual havia drenado boa parte de sua energia antes de ser interrompido.
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Kyo caiu de joelhos ao seu lado e levou imediatamente as mãos até os ferimentos mais graves. O chi percorreu seus braços e envolveu o corpo da paladina numa luz tênue, suficiente para conter o sangramento e fortalecer uma respiração que mal podia ser percebida.
-- Yuleth... fique comigo. Eu...voltei... minha melhor amiga.
Os olhos dela permaneceram fechados. Apenas um movimento quase imperceptível dos lábios respondeu ao chamado.
Enquanto concentrava toda a energia restauradora que conseguia reunir, Kyo observou novamente as marcas espalhadas pelo local. Não havia sinais de luta prolongada. Aquilo não fora um combate, mas uma captura cuidadosamente planejada.
Seu pensamento voltou, inevitavelmente, ao responsável.
Anos haviam se passado desde que aquele orc desaparecera da vida de Yuleth, mas Kyo jamais conseguira esquecer a impressão que ele lhe causara. O bruxo conquistava facilmente a confiança de quem o conhecia. Era culto, falava com calma, tratava todos com respeito e possuía uma educação impecável que contrastava com a brutalidade normalmente atribuída aos orcs. Muitos o admiravam justamente por isso.
Kyo, porém, sempre enxergara algo inquietante por trás daquela aparência.
Nunca encontrara uma razão objetiva para desconfiar dele. Apenas percebia pequenas atitudes que passavam despercebidas pelos demais: a forma como respondia por Yuleth antes que ela pudesse fazê-lo, como conduzia discretamente suas escolhas ou a maneira quase imperceptível com que afastava dela aqueles que julgava inconvenientes. Com o tempo, a cortesia revelou-se apenas uma fachada. Vieram o ciúme disfarçado de preocupação, a necessidade constante de controle e a manipulação silenciosa que fazia Yuleth acreditar que todas as decisões ainda eram suas.
Kyo nunca pronunciava o nome daquele orc. Fazê-lo lhe parecia conceder uma importância que ele não merecia. Chegou a achar que seria uma boa escolha para ela pelo jeito que ele se apresentava.
Sentiu o peito arder ao imaginar o que Yuleth suportara antes de conseguir escapar. Seus olhos mal emanavam brilho quando tentou abrir com os dedos.
A energia que lhe restava diminuía rapidamente, e os recursos de um monge seriam insuficientes se demorasse mais.
Sem perder tempo, ergueu-a cuidadosamente nos braços. O peso da armadura contrastava com a fragilidade do corpo, que parecia leve demais para alguém cuja presença sempre transmitira tanta firmeza. Depositou-a sobre o cavalo ferido, montou logo atrás para sustentá-la durante o percurso e manteve uma das mãos continuamente envolvida em chi enquanto conduzia o animal na direção do bosque onde vivia Earthblood, saindo das áreas órquicas e focando nas áreas taurens.
A corrida pareceu interminável.
Durante todo o trajeto, Kyo renovava os fluxos de energia sempre que sentia a respiração da paladina enfraquecer. O cavalo talassiano, embora ferido, insistia em continuar, como se também se recusasse a abandoná-la.
Quando finalmente alcançaram a clareira onde se erguia a morada temporária da druida tauren, Kyo praticamente saltou da sela.
-- Earthblood!
A tauren surgiu da cabana antes mesmo que ele terminasse de chamá-la. Bastou um olhar para compreender a gravidade da situação. Ao ver a cena, deixou a cumbuca cair de suas mãos e quebrar. Aproximou-se rapidamente, apoiou a mão sobre a testa de Yuleth e fechou os olhos por um instante, deixando que a energia da natureza percorresse seu corpo.
Sua expressão tornou-se melancólica.
-- Eu temia que este dia chegasse.
Enquanto ajudava Kyo a levar Yuleth para o interior da cabana, a druida permaneceu em silêncio agindo com seus poderes. Apenas depois de acomodarem a paladina sobre uma cama de peles começou a separar ervas, raízes e recipientes de água enquanto falava com a serenidade de quem já presenciara muitas histórias semelhantes.
-- Algumas pessoas escondem a escuridão com muita habilidade. Aquele orc sempre pareceu diferente dos demais. Culto, educado, moderado... era impossível negar seu carisma. Mas tudo aquilo servia apenas para conquistar espaço na vida das pessoas. Depois vinham o controle, o isolamento e a manipulação. Ele nunca precisou levantar a voz para impor sua vontade na frente dos outros. Fazia os outros acreditarem que suas decisões eram espontâneas, quando, na verdade, cada passo já havia sido cuidadosamente conduzido por ele. É um perigo aos próprios orcs...
Earthblood lançou um olhar compassivo para Yuleth.
-- Ela sempre acreditou que conseguiria salvá-lo da própria escuridão. Esqueceu que a Luz pode iluminar as trevas, mas não obriga ninguém a abandonar o caminho que escolheu seguir.
Kyo permaneceu calado.
Sabia que a druida tinha razão, mas isso não diminuía a revolta que sentia.
Os dois iniciaram imediatamente os cuidados. Earthblood traçou antigos símbolos druídicos ao redor da cama utilizando folhas de freixo, sementes e cristais ligados ao Sonho Esmeralda, enquanto invocava a força da natureza para restaurar a energia vital da paladina. Kyo permaneceu ao lado dela durante todo o ritual, sustentando o fluxo constante de chi para impedir que a drenagem realizada pelo bruxo consumisse o pouco que ainda restava de sua essência.
As horas se sucederam sem que nenhum dos dois deixasse seu posto.
O esforço começava a pesar sobre Kyo. O suor escorria por seu rosto, seus músculos protestavam e a circulação contínua do chi consumia boa parte de suas próprias forças, mas ele sequer cogitou interromper o tratamento.
Earthblood observava aquela dedicação em silêncio.
Sempre que precisava trocar as ervas ou reforçar os símbolos do ritual, encontrava o jovem monge segurando delicadamente a mão de Yuleth, como se aquele simples contato fosse suficiente para lembrá-la de que ainda havia um caminho de volta. Por algum motivo, percebiam que a alma de Yuleth se debatia dentro de si.
Quando percebeu que a respiração da paladina finalmente adquiria um ritmo mais estável, a tauren aproximou-se e repousou a mão sobre o ombro de Kyo.
-- Ela venceu a parte mais difícil. Dá para sentir também a presença da Luz agindo, mesmo que fraca.
Ele soltou um longo suspiro, como se apenas naquele instante percebesse que também estava prendendo a própria respiração havia horas.
-- Achei... que fosse perdê-la.
Earthblood sorriu com ternura.
-- Não desta vez.
Seus olhos acompanharam discretamente o modo como Kyo voltava a segurar a mão de Yuleth, incapaz de afastar-se mesmo sabendo que ela ainda permaneceria inconsciente por algum tempo. Exausto, com ódio nos olhos, um olhar distante de quem havia uma longa história juntos.
Não havia necessidade de perguntas. Nem de explicações.
Ela conhecia a história dos dois e dos povos élficos.
A maneira como ele permanecera ao lado dela durante toda a noite dizia mais do que qualquer confissão poderia expressar, e Earthblood apenas acariciou seu ombro com delicadeza, oferecendo um silêncio acolhedor enquanto, do lado de fora, Azeroth continuava mergulhada na invasão da Legião Ardente.
